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Orientação: um esporte para a vida toda |
Rumo Verde Clube de Orientação |
A delegação brasileira que participou do WMOC'08 (World Masters Orienteering Championship), realizado em Leiria, Portugal, de 28 de junho a 5 de julho de 2008, trouxe muitas experiências em sua bagagem. Uma delas é o relato de Haroldo Cavalcanti da Federação de Orientação de Pernambuco (FEOPE) sobre seu contato com Elizabeth Brown, uma campeã mundial de 90 anos.
Passava de pouco mais das 11h30min do sábado, 5 de julho de 2008, quando eu finalizava meu último percurso. Na quarta-feira, foram 10,6km com 350m de elevação, e na quinta 10,8km e 250m. O terceiro percurso mais longo que eu enfrentara nos meus 4 anos de Orientação, com 9,0km, estava acabando, pois o penúltimo prisma já fora marcado e eu estava na rota balizada. Acelerei mais um pouco. Dizem os fisiologistas que próximo a exaustão nosso célebro fica em decréscimo de sangue oxigenado, roubado pelos músculos, e não pensamos direito, daí que é bom decidir antes que direção vai tomar após atacar uma ladeira correndo porque senão lá no topo você fará besteira.
Elizabeth Brown competindo
As cercas plásticas faziam uma curva suave à direita, o terreno era irregular mas plano, areia fofa de praia coberta com restos de madeira, cascas de pinheiro, e uma vegetação que parece musgo grosso e seco. Minha juventude permitiu ultrapassar alguns atletas, que ficaram para trás como fantasmas, vultos que não conseguia reconhecer. Finalmente o prisma 200, fim de prova para mim e os demais que chegaram até ali. O som começou a retornar e a visão a fazer sentido. Me dei conta que algo mais estava acontecendo naquele instante e não era minha chegada. O locutor berravas palavras de incentivo e a multidão ao redor das grades batia palmas freneticamente, muitos tiravam fotos. O telão mostrava a cena para quem estava distante. Olhei para trás, para a pista, e entendi. Juntei-me a todos e comecei a aplaudir também. A inglesa Elizabeth Brown estava concluindo seu percurso para tornar-se, aos 90 anos de idade, uma Campeã Mundial!
Elizabeth Brown e Erkki Luntamo no pódio da Sprint
Caminhando determinada, passadas firmes, Dona Elizabeth passara a semana competindo no Campeonato Mundial de Orientação para Veteranos de 2008. Aquela era sua 5ª prova em 7 dias. Na segunda-feira, 30 de junho de 2008, sagrara-se campeã mundial em provas do tipo 'sprint'. Para os puristas não vale. Agora sim. Depois de passar por duas provas de qualificação, cada uma com 1.300 metros de distância e 30m de elevação, ela encontrara os 5 prismas, subindo e descendo por pequenas dunas cobertas como no terreno da chegada.
O Campeão Mundial da M90 Rune Haraldsson com o autor
Uma das forças do nosso esporte lá fora deve-se à longividade com que pode ser praticado. Foram inscritos mais de 3.500 atletas com idade acima de 35 anos. Nada menos que 67 pessoas com mais de 80 anos, entre homens e mulheres, disputaram a final, passando primeiro por duas provas longas classificatórias. Considere ainda, que na final M80A os atletas correram para 15 prismas, com 4,1 km e quase 100 metros de elevação, com o vencedor, o Sr. Erkki Latti, da Finlândia, zerando o percurso em 00:51:01 ou 12,4 min/km. Não é tão pouco assim, pois dos 37 atletas masculinos da H35 que completaram a final B, 11 tiveram um desempenho abaixo disto, eu inclusive.
A Vice-Campeã da W85, Lilliam Ross, com a brasileira Alcenir Melo e outras atletas do Japão
Elizabeth Brown, Lilliam Ross, Erkki Lutamo e Rune Haraldsson são exemplos do nosso esporte. Pessoas com 85 anos e mais que continuam a praticar um esporte singular.
P.S.: Dedico este texto a Sebastião Bezerra Marques. Vovô, que faleceu ano passado aos 94 anos, procurava viver a vida sem perder um minuto. Exímio jogador de damas e dominó, gostava dos versos de Zeca Pagodinho "Deixa a vida me levar. Vida, leva eu...".
Haroldo Cavalcanti (FEOPE)
02/09/2008
[Também publicado no portal
Orientacao.Net, em 2 set. 2008.]